INTRODUÇÃO
O Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) tem
desenvolvido projectos de investigação e de intervenção focalizados em
problemáticas emergentes da educação escolar, especificamente as que se
relacionam com as políticas educativas, o currículo escolar, as identidades
profissionais dos professores e a sua formação inicial e contínua, as formas
de vida das crianças, dos jovens e dos professores em contexto escolar e o
impacto da educação formal nos seus mundos da vida e nas suas identidades e
as suas relações com o contexto social mais lato. A compreensão sobre o modo
como estas problemáticas se transformam em função das mudanças
sociopolíticas, culturais e económicas que afectam a educação escolar e dos
novos saberes que se produzem na comunidade científica das ciências da
educação constitui um desígnio que orienta as opções e as práticas de
investigação no CIIE.
As conturbações e conflitualidades que perturbam hoje o mundo das
escolas e a complexidade que o caracteriza justificam a necessidade de um
olhar atento e sistemático sobre a realidade educativa; mas um olhar
portador de sentidos que se explicitem; capaz de simultaneamente
possibilitar a escuta das especificidades dos contextos educativos e dos
sujeitos que os constituem e de restituir à comunidade educativa uma
interpretação teoricamente informada desse mesmo olhar; uma interpretação
que permita dar a conhecer realidades múltiplas e heterogéneas e potenciar a
transformação dos contextos educativos formais.
O desenvolvimento de um Observatório da vida nas escolas, no contexto da
actividade científica do CIIE, visa constituir uma rede de saberes
alicerçada nas valências de investigação do centro, integradora de
contributos emergentes de projectos de investigação - cujo objecto e/ou
campo de estudo considerem a Escola e a sua heterogeneidade e complexidade
epistemológicas - desenvolvidos nas diferentes áreas do CIIE e de parcerias
com instituições, associações e projectos a partir das quais se possam
partilhar saberes e informações e construir conhecimento novo com base nessa
partilha.
O conceito de observatório que nos orienta não se reduz a um mero
dispositivo de análise, ele pretende constituir-se numa entidade complexa
que institua procedimentos sistemáticos de produção de conhecimento sobre a
vida nas escolas em parceria com essas mesmas escolas e de partilha e debate
com os sujeitos que vivenciam os contextos alvo da investigação desse mesmo
saber, através da instituição de uma rede de comunicação fundamentada em
suportes diversos. Trata-se de instituir «fóruns híbridos», entre diferentes
actores e diferentes entidades sociais, que possibilitem uma análise e
reflexão com base em saberes de origem e tipo diversos, possibilitando uma
abordagem caleidoscópica à vida nas escolas.
O observatório incide a sua actividade na «observação» dos jardins de
infância e das escolas dos ensinos básico e secundário integrados na área
geográfica da Direcção Regional de Educação do Norte, embora sempre que se
revela necessário, o âmbito geográfico do observatório é alargado a todo o
país.
O CONTEXTO SOCIOEDUCATIVO DE INSERÇÃO DO OBSERVATÓRIO
Os dispositivos de regulação e de estabilização
da identidade institucional escolar têm sofrido profundas rupturas e a sua
reinvenção configura-se como algo de difícil realização. Este fenómeno, não
sendo recente (tem emergido e tem-se complexificado no processo de
massificação e alargamento da escolaridade obrigatória), tem originado ao
longo das últimas décadas a produção de medidas legislativas em diferentes
domínios do campo educativo, no sentido de possibilitar a adaptação
institucional às mudanças sociais, tecnológicas e económicas. A educação
escolar em Portugal tem sido, por isso, objecto de sucessivas reformas de
âmbito curricular, organizacional e administrativo que pretenderam
responder, quer à complexidade e conflitualidade emergentes da situação do
que se tem designado por crise da instituição escolar e da profissionalidade
docente, quer aos imperativos sociopolíticos e económicos que resultam dos
processos de democratização e de modernização da sociedade portuguesa e da
inserção de Portugal na União Europeia.
Diversos estudos têm realçado o insucesso destas reformas e revelado
níveis preocupantes de insucesso e de abandono escolares em Portugal e uma
crescente perda de legitimidade das funções sociais da Escola e dos saberes
que ensina. Por outro lado, os contextos educativos formais caracterizam-se
hoje por profundas instabilidades que traduzem uma complexidade de
percepções, de representações e de relações vividas quotidianamente no
interior da escola, que se articula com outros contextos sociais e neles se
repercute, designadamente os contextos familiares e de trabalho.
Os novos mandatos sociais sobre a educação escolar e os discursos que os
acompanham, designadamente nos domínios formativo e científico, colocam
novos desafios à Escola que requerem uma abordagem problematizadora e
esclarecedora da sua interpretação pelas comunidades educativas. As
representações simbólicas e cognitivas e as determinações sociais produzidas
por esses mandatos configuram novas concepções de sociedade e de
profissionalidade docente e novas formas de educar na Escola que a
investigação em educação deve contribuir para compreender e problematizar.
As últimas décadas, em Portugal, têm evidenciado transformações nas
relações do mundo do trabalho com o mundo da educação escolar que obrigam a
Escola a repensar-se e a reorganizar-se. Os fenómenos de exclusão escolar e
as suas implicações na exclusão social são também factores de instabilização
da instituição educativa que têm originado mudanças quer no âmbito das
políticas educativas quer no das práticas escolares, de que é exemplo a
implementação dos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária e das
diversas modalidades de percursos curriculares alternativos.
As transformações implicadas em novas configurações identitárias e em
novas condições socioculturais e económicas, geradas no contexto social
actual, afectam os quotidianos das escolas, das crianças e dos jovens, dos
professores e das famílias, instabilizando as formas de justificar e de
legitimar as práticas escolares e exigindo novos mandatos institucionais,
que incidem na relação educativa e nos saberes escolares, na organização
institucional e no lugar social da educação escolar e das suas relações com
o trabalho. As crianças e os jovens estão no centro desses mandatos e,
porque constroem os seus mundos da vida em redes sociais complexas e
multirreferenciais, alteraram radicalmente o modo de se relacionarem com a
escolarização e constroem, em muitos casos, práticas culturais de
resistência (à aprendizagem e à cultura escolar) que perturbam os
dispositivos institucionais tradicionais e motivam diferentes atitudes
profissionais e institucionais, com implicações éticas também distintas, por
parte dos professores: de questionamento da acção educativa, individual e
colectiva, e procura de alternativas capazes de cativar as crianças e os
jovens para o trabalho escolar e de lhe dar significado; ou, pelo contrário,
de reforço de rotinas e de práticas de controlo e de dominação que tendem a
produzir a exclusão de uma parte significativa dos alunos.
Neste contexto de profunda complexidade e instabilidade institucional, mas
também de interacções de risco com impacto na vida actual e futura das
crianças e dos jovens, o Observatório da vida nas escolas pode contribuir
para elucidar e sustentar cientificamente algumas das transformações que
importa implementar no sentido de a Escola ser capaz de promover
efectivamente a igualdade de oportunidades, a justiça socioescolar e a
democratização social.
OBJECTIVOS
O Observatório da vida nas escolas pretende, através de procedimentos de
investigação em educação, conhecer, analisar, divulgar e debater a realidade
socioeducativa dos jardins de infância e das escolas dos ensinos básico e
secundário, sobretudo da região norte do país; pretende, ainda,
disponibilizar informação que possa fundamentar a tomada de decisão em
matérias de política educativa e de concepção e desenvolvimento de projectos
educativos nos agrupamentos de escola, e constituir um recurso para o
desenvolvimento de outros projectos de investigação nacionais e
internacionais.
Especificamente pretende-se:
- implementar uma rede de
recolha de informação fundamentada na utilização de metodologias de
investigação e no estabelecimento de protocolos, visando o acesso a dados
actualizados sobre a vida nas escolas;
- produzir conhecimento em diferentes domínios que têm implicações nas
formas de vida produzidas na escola, designadamente: as políticas
educativas, o desenvolvimento curricular, a administração escolar, a
formação de professores, a relação educativa e as relações informais que se
vivem nas escolas;
- conhecer a especificidade dos processos educativos e relacionais
experienciados em diferentes escolas;
- criar dispositivos de divulgação sistemática e actualizada do conhecimento
produzido;
- criar uma base de dados sobre projectos de investigação focados na
educação escolar;
- possibilitar debates prospectivos com as comunidades educativa e
científica, nacionais e internacionais sobre os resultados da actividade do
observatório;
- criar parcerias com outros observatórios, nacionais e internacionais.
ORGANIZAÇÃO
O OBVIE tem uma gestão científica e organizacional fundada numa coordenação
e direcção assumidas por investigadores do CIIE e numa equipa de
investigação cuja composição depende dos projectos em desenvolvimento.
A actividade do OBVIE dinamiza-se em torno do estabelecimento de protocolos
de desenvolvimento de relações de investigação com diversas entidades, de
que se destacam os agrupamentos de escolas, enquanto principais parceiros do
observatório, mas também os centros de formação de associação de escolas, as
associações profissionais e científicas e outras organizações cuja parceria
se revele pertinente.
O OBVIE, actualmente, está organizado em quatro eixos de acção, que poderão
sofrer transformações em função da sua dinâmica de desenvolvimento:
- Vida nas escolas parceiras do OBVIE
- Investigação sobre a Escola
- Formação de professores
- Análise de políticas em educação
Cada um dos eixos do OBVIE integra projectos de investigação coordenados
por investigadores do CIIE, que, visando o mesmo campo de estudo, permitem
produzir conhecimento caleidoscópico e complexo sobre a realidade das
escolas.
AVALIAÇÃO DA ACTIVIDADE DO OBSERVATÓRIO
Apesar de o desenvolvimento do OBVIE ser regulado por actividades
sistemáticas de reflexão e análise produzidas no âmbito da coordenação e
direcção, das equipas de investigação e dos seminários com as entidades
parceiras, que têm impacto na acção do observatório, realiza-se uma
avaliação bianual com vista à sistematização de resultados e à reformulação
do projecto.