RECONSTRUÇÃO DE UMA ESCALA DE
LOCUS-DE-CONTROLO
DE SAÚDE[1] (*)
JOSÉ
LUIS PAIS RIBEIRO (**)
Faculdade de Psicologia e de
Ciências da Educação- Universidade do Porto
Resumo
O presente artigo apresenta a reconstrução de uma
escala de avaliação do Locus-de-Controlo de Saúde. Os items utilizados foram
recolhidos de várias escalas de língua inglesa que, depois de traduzidos e
analisados, e de verificadas as suas propriedades métricas, deram origem a uma
escala de avaliação do Locus-de-Controlo de Saúde com dois factores. O estudo
foi realizado em dois momentos com duas amostras de estudantes da Universidade
do Porto. A consistência interna da escala mostrou-se satisfatória.
The development of a Health Locus-of-Control Scale is described. Scales
have been developed to tap beliefs that the source of reinforcements for health
related behaviours is primarily internal, a matter of chance or under the
control of powerful others. This scale is based on earlier work, with various
health-locus-of-control scales, developed in English. Two investigations were
conducted for the discovery of factor structure. The results suggested the
existence of two factors, internal control and powerful others. Alpha internal
consistensy reliability coefficients for factors 1 and 2 scales were .75 and
.74.
INTRODUÇÃO
Recentemente
tem crescido o interesse pelo papel de determinadas variáveis de personalidade
no comportamento relacionado com a saúde e com as doenças e, de entre estas, o
Locus-de-controlo tem recebido particular atenção.
Desde 1966, as
investigações têm mostrado que o Locus-de-Controlo é um importante predictor
dos resultados de saúde1. Um resumo de Lau2 confirma que um controlo interno tem sido associado a variáveis
consideradas importantes, tanto para o sistema de saúde em geral, como para o de
cuidados de saúde em particular, nomeadamente: conhecimento acerca das doenças,
capacidade para deixar de fumar, capacidade para perder peso, seguimento
adequado das prescrições médicas, uso adequado de métodos de controlo de
natalidade, vacinação, uso de cinto de segurança, prevenção dentária, prever e
controlar crises epilépticas. Para além destes aspectos outras investigações
têm demonstrado que ele está associado a: envelhecimento saudável3; ajustamento à dor4; adopção de comportamentos
de promoção de saúde tais como a redução de peso excessivo5; redução do consumo de tabaco6; aderência às prescrições
médicas7; ajustamento à doença
cancerosa8. É, igualmente, considerada
uma variável importante para o desenvolvimento de programas de intervenção na
promoção da saúde9, 10.
Locus-de-Controlo
O
Locus-de-Controlo é um constructo nascido no seio da Teoria da Aprendizagem
Social. Define-se como uma característica psicológica que tipifica o grau em
que o indivíduo percebe que o que lhe acontece na vida do dia a dia é
consequência das suas acções e, por isso, pode ser controlado por ele (controlo
interno) ou, como não tendo relação com o seu comportamento e, por isso, está
fora do seu controlo (controlo externo). Como diz Rotter, é a percepção do
indivíduo "que um reforço sucede, ou é contingente, ao seu comportamento, versus
a percepção, que o reforço é controlado por forças exteriores a ele e pode
ocorrer independentemente da sua acção"11
(p.1). Embora o Locus-de-Controlo tenha sido concebido como uma característica
geral, diversos autores têm defendido que esta variável pode, e deve, ser
considerada em domínios específicos. Por exemplo, Strickland12, defende a importância de considerar a
especificidade do Locus-de-Controlo no domínio da saúde.
Avaliação do Locus-de-Controlo
Rotter11 defende que o Locus-de-Controlo é uma
caracteristica unidimensional que se representa como um contínuo onde, num
extremo, se encontra a internalidade e, no outro, a externalidade. Rotter
construiu uma escala de avaliação desta dimensão que incluía um conjunto de 23
itens com uma resposta de escolha forçada: o respondente tem de escolher uma de
duas alternativas, a que melhor se lhe aplica, e em que uma das alternativas
reflecte uma orientação interna e a outra externa. A ideia de continuidade
entre internalidade e externalidade tem sido desafiada por diversos autores13-17. Do mesmo modo, tem sido questionado se o
Locus-de-Controlo é uma característica unidimensional ou multidimensional.
Estudos de análise factorial realizados sobre a escala original de Rotter têm
encontrado diversos factores14 levando os autores a
afirmar que ao invés de ser uma escala unidimensional ela é multidimensional.
Embora o
Locus-de-Controlo seja uma caraterística geral que se aplica a todas as
situações da vida, inúmeros instrumentos têm sido construidos para avaliar o
Locus-de-Controlo em aspectos específicos, como é o caso da saúde.
Uma das
primeiras tentativas de construir uma escala para avaliar o Locus-de-Controlo
no contexto específico da saúde deve-se a Wallston et al.,18. Estas escalas divergem da escala de Rotter no modo
de responder aos items, utilizando, ao invés de uma resposta de escolha
forçada, resposta numa escala tipo Lickert.
Uma questão
que se coloca é a de saber se as duas estratégias de avaliação do
Locus-de-Controlo, resposta de escolha forçada como na escala de Rotter, ou
resposta em escala tipo Lickert, chegam aos mesmos resultados. Collins14 respondeu a essa questão: Converteu os 23 itens de
escolha forçada da escala de Rotter (cada item tem duas afirmações antagónicas
das quais é forçada a escolha de uma) numa escala em que cada afirmação passa a
item, dando assim origem a uma escala com 46 items tipo Lickert. Passou
as duas escalas (uma com os 46 itens e resposta tipo Lickert e outra com
a formulação original de Rotter, com 23 itens de escolha forçada), a uma
população de 300 estudantes da universidade de Wisconsin.
A autora
verificou, através da análise estatística, que os respondentes eram classificados
da mesma maneira através de uma ou de outra forma de resposta, concluindo que:
"os formatos de resposta de escolha forçada e de Lickert são, do
ponto de vista empírico, e na essência, idênticos" (p.382). A análise de
Collins sobre a escala original de Rotter encontrou duas dimensões distintas,
ao longo das quais os indivíduos podem variar nas atribuições de causalidade, a
saber:
a) predictibilidade dos acontecimentos versus sorte e,
b) atribuições situacionais versus pessoais.
A primeira
reflecte a medida em que as pessoas acreditam que o que acontece está
subordinado a algum padrão de regularidade, por leis e, por isso, é controlável
ou se, pelo contrário, é imprevisível e, por isso, incontrolável. Na segunda as
pessoas podem variar quanto à medida em que acreditam que as coisas boas ou más
dependem deles ou, pelo contrário, dependem de outras pessoas ou de outros
aspectos que não controlam. As duas dimensões podem ser consideradas como dois
eixos que, sendo cruzados, dão origem a quatro quadrantes. Na sua investigação,
Collins, encontra quatro factores que confirmam estes quatro quadrantes, embora
nestes quatro factores identifique uma característica de externalidade versus
internalidade comum a todos. A internalidade versus externalidade,
consoante o factor em que se encontra, não se correlaciona com as outras
internalidades ou externalidades de outros factores. Isto pode significar que
as pessoas são mais ou menos externas em função do contexto, ou da situação, a
que se aplica o questionário. Esta hipótese reforça a convicção de que,
provavelmente;
a- as pessoas
são mais ou menos internas versus externas consoante as dimensões,
contextos, ou situações;
b- as pessoas
tendem a variar, quanto ao Locus-de-Controlo, ao longo de um contínuo de
externalidade versus internalidade, tal como na proposta original de
Rotter.
Noutro estudo
com uma escala de avaliação do Locus-de-Controlo no contexto específico de
saúde, Boyle e Harrison13 encontraram dois factores
que reflectiam as dimensões de internalidade e externalidade, de que são
exemplo os seguintes itens:
internalidade -se eu ficar doente, isso
acontece devido a algo que eu fiz;
externalidade- a saúde é, em larga
medida, uma questão de sorte.
Estes dois
itens, um numa formulação interna e outro numa formulação externa, exemplificam
os items que saturam os dois factores que os autores referidos encontraram
através da análise factorial. Ambos podem ser representantes de internalidade
ou de externalidade consoante o método de classificação dos items. Se, por
exemplo, numa escala de Lickert de 6 posições, variando entre
"concordo em absoluto com a afirmação" até "discordo em absoluto
da afirmação", um indivíduo responder ao primeiro item que discorda em
absoluto, e ao segundo que concorda em absoluto está, em ambos, a representar a
dimensão de externalidade. Isto não acontecia no sistema de avaliação de
Rotter, que consistia num questionário com resposta de escolha forçada em que o
indivíduo tinha de escolher entre um item ou outro.
No presente
artigo apresentam-se os resultados de um processo de reconstrução de uma escala
de avaliação do Locus-de-Controlo de Saúde realizada em dois estudos distintos
e complementares: no primeiro procedeu-se à escolha dos itens que deviam ser
incluídos na escala, à sua organização aplicação e análise; no segundo
aplicou-se e analisou-se a escala resultante do primeiro estudo. Este estudo
incluia-se num projecto de investigação que visava identificar factores
psicológicos que estavam associados à saúde (e não às doenças)19.
MÉTODO
Sujeitos
No primeiro
estudo, a amostra consistiu em 135 sujeitos jovens e saudáveis, 85% do sexo
feminino, recrutados entre alunos da universidade do Porto maioritariamente do
terceiro ano da universidade. A idade média dos indivíduos do sexo feminino era
de 22,5 anos (entre 18 e 30); a idade média dos indivíduos do sexo masculino
era de 23,7 anos (entre 20 e 30).
No segundo
estudo recorreu-se a uma amostra intencional que abrangeu 609 estudantes
saudáveis, 53% do sexo feminino, entre os 11º ano de escolaridade e último ano
da universidade, pertencentes a três escolas secundárias de zonas diferentes da
cidade do Porto, e a nove escolas da Universidade do Porto, com idades entre os
16 e 30 anos. Os estudantes do 11º ano de escolaridade foram escolhidos de
entre os que, pelo seu comportamento escolar, tal como era percebido pelos
professores, tinham alta probabilidade de aceder à universidade. Este
procedimento permitiria considerar este grupo como pré-universitário.
Material
O primeiro
passo da construção do questionário consistiu na escolha dos items a incluir na
escala. Foram escolhidos entre os itens das seguintes escalas: Health Locus
of Control Scale18; Multidimensional Health
Locus of Control Scales20; Health-Specific
Locus-of-Control 16. Muitos dos itens
repetiam-se nas diferentes escalas embora a sua redacção não fosse exactamente
igual, por vezes estavam formulados na primeira pessoa, outras vezes de forma
impessoal. Na tradução escolheu-se a forma impessoal para todos os itens. Foram
produzidos 39 itens pertencentes às várias sub-escalas que constituiam os
instrumentos referidos.
Processo de construção
Cada vez que
se utiliza um instrumento de avaliação de personalidade, ele deve ser colocado
em questão. Uma nova população tem características diferentes das populações
anteriores levando-nos a questionar se o instrumento utilizado avalia os
constructos que se pretende, ou seja, a questionar a validade do instrumento.
Ora não parece possível nem desejável, nem sequer de bom senso, verificar as
propriedades psicométricas de um instrumento cada vez que ele é utilizado. Mas
se a asserção anterior é verdadeira quando nos referimos a instrumentos que
foram estudados com amostras provenientes da mesma população, ela já não o é
quando se estão a utilizar instrumentos que foram construídos e estudados para
outras populações e, principalmente, noutro idioma. Neste caso, o problema da
língua é particularmente importante porque o processo de tradução é susceptível
de alterar o sentido original de cada frase; mesmo quando a tradução é perfeita
pode tomar um sentido completamente diferente no idioma para que é traduzido.
Pelas razões aduzidas, considerou-se que a adaptação de um instrumento e o
consequente processo de tradução são um processo de reconstrução muito
semelhante ao processo de construção.
Procedimento
Os passos
dados na reconstrução da escala foram os seguintes:
1-escolha da poule de itens a
incluir no questionário;
2- tradução dos itens; 2.1) tradução
pelo autor; 2.2) tradução por uma pessoa cuja língua maternal era a língua do
instrumento e a língua de educação fosse a resultante da tradução;
3) discussão e comparação do sentido da
tradução nas duas línguas. Quando esse sentido era ambíguo, as diversas
traduções geradas pelo item original eram incluidas na versão traduzida.
4) avaliação dos itens por especialistas
para saber se; 5.1) cada item mede o constructo que se propõe medir; 5.2) há
outra forma mais simples ou adequada de apresentar o item; 5.3) o formato do
conjunto de itens é o mais adequado; 5.4) o tipo de resposta pedido é adequado;
5)
reflexão falada com membros da população alvo para identificar se percebiam a
expressão do modo que se pretendia;
6) passagem do questionário à população
do estudo;
7) análise da distribuição das respostas
por item;
8) tratamento psicométrico dos itens.
A primeira
fase da análise dos itens descrita no ponto 8 baseou-se análise da estrutura
factorial da escala. Para esta procedeu-se à Análise de Componentes Principais
dos items. Esta é recomendada como primeiro procedimento de análise factorial
quando o principal interesse do investigador consiste na redução de um grande
número de variáveis a um reduzido número de componentes21, 22 . A escolha da solução factorial tomou em conta os
seguintes critérios:
a) validade convergente de cada item com
o factor que satura. Utilizou-se, como critério para considerar que um item
está correlacionado com o factor, ter uma correlação igual ou superior a 0,40
com esse hipotético factor;
b) validade discriminante, que é a
medida em que um item satura apenas um factor. Utilizou-se como critério que,
um item para ter validade discriminante, deve apresentar uma diferença entre as
correlações com o factor a que pertence e a correlação seguinte de maior
magnitude, de valor igual ou superior a 15 pontos;
c) a percentagem da variância total que
é explicada por cada solução factorial. Esta percentagem deve ser superior a
50%, embora, como será referido, os instrumentos originais de onde foram
retirados os items, não respeitem esse critério;
d) a coerência de cada solução
factorial: coerência significa que a análise de conteúdo dos itens que saturam
cada factor não apresenta discrepâncias incompatíveis com a solução teórica
original;
e) o tamanho do questionário: quanto
mais pequeno melhor. Perante duas soluções factoriais com as mesmas
propriedades psicométricas a que incluisse menor número de itens seria
preferida.
Esta fase
concluiu com a:
a) decisão sobre o número de factores e
de itens a incluir na escala;
b) análise da consistência interna da
escala e de cada sub-escala definida pela análise factorial;
d) análise da validade de critério da
escala e sub-escalas.
RESULTADOS
Análise factorial
No primeiro estudo,
com recurso a software SPSS23 versão 4.0, procedeu-se a
uma Análise de Componentes Principais (PCA) de todos os 39 itens, com diversas
soluções factoriais. A adequação da amostra foi testada com o teste
Kaiser-Meyer-Olkin, cujo valor foi de 0,78. Segundo Tabachnick e Fidell22 este valor deve ser superior a 0,60. Foi escolhida
uma solução de dois factores proveniente de rotação ortogonal (varimax),
conforme a análise dos eigenvalues sugeria. A solução de dois factores
explica 43% da variância total. O primeiro factor explica 24,3% da variância
total (e 55,9% da variância comum); o segundo factor 19% da variância total (e
44,1% da comum). Para esta solução ficaram na equação 14 itens, dos quais oito
pertenciam ao primeiro factor e seis ao segundo. Os factores foram denominados
do seguinte modo: o primeiro factor "Locus-de-Controlo" (LC): o
segundo "Outros Poderosos" (OP). São exemplos de itens de cada
factor:
LC-a sorte desempenha um papel
importante na quantidade de tempo que uma pessoa leva a recuperar de uma
doença;
OP-manter contacto regular com o médico
é a única maneira de evitar ficar doente.
O resultado do
somatório dos items varia entre 14 e 98. O valor mais baixo corresponde ao
locus externo e o mais elevado ao locus interno. A resposta é dada numa escala
de Lickert de 7 posições.
Esta versão da
escala foi passada no segundo estudo, tendo-se repetido a ACP com os resultados
desta segunda amostra. A solução factorial encontrada com a ACP explicava 41,8%
da variância total, com o primeiro factor a explicar 22,1% da variância total e
55,9% da comum, o segundo 19,7% da variância total e 44,1% da comum. No quadro
1 apresenta-se a informação sumária sobre os items que foram conservados, assim
como a média e desvio padrão das respostas relativamente a cada item. No quadro
só são apresentados valores da carga factorial superiores a 0,40.
Quadro 1
Informaçãoo sumária sobre os itens de
Locus-de-Controlo de
saúde, incluindo a carga factorial e distribuição
por factores
Itens
Factores Média Dp
LC OP
O facto de as pessoas se sentirem bem, ou não,
depende, muitas vazes, do acaso 0,57 2,73 1,39
As pessoas que nunca adoecem é porque têm
muita sorte 0,64 2,54 1,38
Em saúde não se pode invocar, nunca, má sorte 0,58 4,71 1,66
Recuperar de uma doença não tem nada a ver
com a sorte 0,62 2,57 1,42
Ter, ou não, boa saúde é, apenas, uma questão
de sorte 0,76 1,85 1,02
Se uma pessoa tiver cuidado com o que faz
consegue evitar muitas doenças 0,40 1,68 0,66
Muitas das coisas que afectam a saúde das pessoas
são fruto do acaso 0,72 2,76 1,59
A sorte desempenha um papel importante na quantidade
de tempo que uma pessoa leva a recuperar de uma doença 0,74 2,47 1,30
Procurar o médico para fazer check-ups regulares é
um factor chave para se manter saudável 0,53 2,03 1,13
Para se recuperar de uma doença são necessários,
essencialmente, bons cuidados médicos 0,54 5,34 1,11
Manter contacto regular com o médico é a única
maneira de evitar ficar doenta 0,78 4,89 1,42
No que diz respeito à saude, as pessoas têm, apenas,
de seguir as instruções do seu médico 0,72 3,64 1,65
Quando alguém recupera de uma doença é, normalmente,
porque algumas pessoas (por ex. o médico ou
enfermeira,
família, amigos) tomaram bem conta dela 0,55 4,28 1,43
Consultarem regularmente um bom médico é a única coisa
que se pode fazer para não ter problemas de saúde 0,76 2,50 1,38
Factores-
LC- "Locus-de-Controlo": OP-
"Outros Poderosos"
Os resultados
mostram estabilidade para os valores da solução factorial entre a primeira e
segunda passagem, mas o valor da variância total explicada por esta solução é
modesto. No entanto a revisão da literatura sobre estudos de análise factorial
com estes tipo de escalas apontam para valores idênticos. Na análise realizada
por Boyle e Harrison13, com recurso à análise
factorial, sobre a escala de Locus-de-Controlo de saúde de Wallston, et al.,18 verificaram que uma solução de três factores
explicava 46% da variância total. Gutkin, Robbins e Andrews15 no estudo da mesma escala encontram uma solução de
dois factores que explicava 41% da variância total. Collins14, no seu estudo de transformação do tipo de resposta
de escolha forçada para escala de Lickert encontrou uma solução de 4
factores que explicavam respectivamente, 29,3%, 25,7%, 24,7% e 20,3%, da
variância comum, não apresentando os resultados da variância total. Podemos,
assim, concluir que os valores encontrados por este tipo de escalas são
idênticos nos diversos estudos.
No quadro 2 apresentam-se os valores da
correlação entre a escala e sub-escalas desta variável.
QUADRO 2
Correlação entre as notas da escala
e sub-escalas de Locus-de-Controlo de saúde
TOTAL LC OP
TOTAL 0,74 0,67
LC
0,01
OP
LC- Locus-de-Controlo; OP- outros poderosos
A correlação
entre os resultados dos dois factores mostra que não há correlação entre os
dois factores, e valores de correlação sub-escala-escala total, idênticos.
Consistência interna
A análise da
consistência interna - Alfa de Cronbach - da escala e sub-escalas, nos dois
estudos, foi a seguinte (o valor entre parentesis refere-se ao valor de alfa
encontrado no primeiro estudo): primeiro factor, alfa=0,75 (0,78); segundo
alfa=0,74 (0,60). A consistência interna para a escala total, no segundo
estudo, foi de alfa=0,69. Segundo Nunnaly24,
o valor da consistência interna deve ser superior a 0,60.
Comparando
estes valor com o de outras escalas que se propõem avaliar o Locus-de-Controlo
de Saúde, verifica-se o seguinte: a escala original de Wallston, et al.,18 apresentava valores de alfa, para três populações
diferentes, entre 0,40 e 0,72. Uma revisão de Boyle e Harrison13 da mesma escala, encontra um valor de 0,49 para a
consistência interna da escala total. Gutkin, Robbins e Andrews15 utilizando a mesma escala unidimensional
encontraram valores de 0,70 e 0,67. Lau e Ware16 no estudo de construção de uma escala de
Locus-de-Controlo de saúde encontraram valores de consistência interna que
variavam entre 0,39 e 0,71. Pode-se então concluir que os valores encontrados
para a escala apresentada neste estudo são superiores aos de instrumentos
semelhantes de língua inglesa.
Validade discriminante
Procedeu-se à
verificação da validade discriminante da escala contra uma escala de avaliação
da Auto-Eficácia de Sherer, et al.,25. Para tal realizou-se uma
análise factorial (PCA) da totalidade dos itens das duas escalas (62 itens). A
distribuiição dos itens fez-se por 15 factores. Apenas em três factores há
sobreposição de itens que incluia um item de uma das escala misturado com itens
da outra escala. Por outro lado, a correlação entre os resultados das escalas
de Locus-de-Controlo de Saúde e da Escala-de-Auto-Eficácia é modesto(r=0,11).
A escala de
Locus-de-Controlo de Saúde mostrou-se predictora de resultados de saúde,
nomeadamente com a percepção geral de saúde (p<0,05) avaliada com General Health Perception
Battery do Rand's
Health Perceptions Study 26, com os indivíduos mais
internos com melhor percepção de saúde. A sub-escala da escala de
Locus-de-Controlo de Saúde, "outros poderosos" mostrou-se,
igualmente, predictora dos domínios "prevenção" (p <0,01) e
protecção" (p <0,05) do questionário de avaliação dos comportamentos/
atitudes pertencente ao Life-Style-Assessment-Questionnaire27.
CONCLUSÃO
A primeira
conclusão a retirar é que a versão resultante deste estudo apresenta
propriedades métricas idênticas, ou superiores, às das escalas deste tipo existentes em língua inglesa. No entanto,
tal como nas escalas de língua inglesa permanecem algumas questões básicas de
que se salienta:
a) O
Locus-de-Controlo é um constructo unidimensional como Rotter11 defendia, ou, pelo contrário é um constructo
multidimensional?
b) O tipo de
resposta deve ser de escolha forçada como na escala original de Rotter ou deve
ser noutro tipo de resposta?
c) A
contribuição do Locus-de-Controlo para a saúde e as doenças é importante ou,
como recentemente afirmavam ários autores28, 29, tem um papel muito menos significativo na predição do comportamentos
relacionado com a saúde do que muitas outras variáveis equivalentes?
d)
Recentemente Rotter30 colocava questões
importantes acerca da concepção teórica da natureza dos items que têm sido
utilizados para avaliar o Locus-de-Controlo, nomeadamente defendendo que os items
são amostras de comportamento ao invés de indícios. A ser assim, tem de ser
reconsiderada a consistência interna das sub-escalas, a própria existência de
sub-escalas e a natureza da nota que resulta da escala.
e) Finalmente
é importante discutir a importância de se ter um locus interno ou externo. A
investigação tende a considerar que a internalidade é uma característica
importante mas, por exemplo, Strickland12 explicava que em algumas
circunstâncias é mais adequado ser externo do que ser interno.
Relativamente
à escala neste estudo, é necessário continuar a aperfeiçoar a sua construção,
nomeadamente, produzindo mais e melhores itens de modo a que explicação da
variância total proporcionada pelos factores resultantes da análise factorial,
suba para valores acima dos 50%.
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versus external control of reinforcement: a case history of a variable. Americam Psychologist, 45(4), 489-493.
LOCUS DE CONTROLO DE SAÚDE
Vai encontrar, a seguir, um conjunto de afirmações acerca
da maneira como as pessoas pensam acerca da saúde. À frente de cada afirmação
encontra 7 letras (de A a G). Se assinalar a A significa que discorda
totalmente da afirmação e que você nunca a faria; se assinalar a letra G
significa que concorda totalmente e que corresponde totalmente à sua maneira de
pensar. Entre estes dois extremos tem ainda 5 possibilidades (5 letras) de
escolha, consoante estiver mais em desacordo ou de acordo com a sua maneira de
pensar. Assinale apenas uma das letras. Não há respostas certas ou erradas.
Todas as respostas que der são igualmente correctas. Peço-lhe que reflicta bem
na resposta que der, de modo que ela expresse a maneira como pensa.
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discordo totalmente |
discordo bastante |
Discordo um pouco |
não concordo nem discordo |
concordo um pouco |
concordo bastante |
concordo totalmente |
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1 |
Procurar o médico para
fazer check-ups regulares é um factor chave para se manter saudável |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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2 |
O facto de as pessoas se
sentirem bem ou não, depende, muita vezes, do acaso |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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3 |
As pessoas que nunca
adoecem é porque têm muita sorte |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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4 |
Em saúde não se pode
invocar quase nunca "má sorte" |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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5 |
Para se recuperar de uma
doença são necessários, essencialmente, bons cuidados médicos |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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6 |
Recuperar de uma doença
não tem nada a ver com a sorte |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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7 |
Ter ou não boa saúde é,
apenas, uma questão de sorte |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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8 |
Se uma pessoa tiver
cuidado com o que faz consegue
evitar muitas doenças |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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9 |
Manter contacto regular
com o médico é a única maneira de
evitar ficar doente |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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10 |
No que diz respeito à
saúde, as pessoas têm, apenas, de seguir as instruções do seu médico |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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11 |
Quando alguém recupera de
uma doença é, normalmente, porque
algumas pessoas (por ex. o médico ou enfermeira, família, amigos) tomaram bem conta dela |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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12 |
Muitas das coisas que
afectam a saúde das pessoas são fruto
do acaso |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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13 |
A sorte desempenha um
papel importante na quantidade de tempo que uma pessoa leva a recuperar de
uma doença |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
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14 |
Consultarem regularmente
um bom médico é a única coisa que se pode fazer para não ter problemas de
saúde |
A |
B |
C |
D |
E |
F |
G |
[1] Publicado em: Psiquiatria clínica, 15(4), pp207-214,1994
(*) Esta investigação foi parcialmente subsidiada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto Nacional de Investigação Científica.
(**) Professor Auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto