DESENVOLVIMENTO DE UMA ESCALA DE AUTO-APRECIAÇÃO PESSOAL
José Luis Pais Ribeiro
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
-Universidade do Porto
As variáveis de auto-percepção ou de auto-referência (para
descrever os julgamentos que as pessoas fazem sobre si próprias) fazem parte do
repertório da psicologia desde os seus primórdios. A denominação que têm
recebido é enorme (auto-conceito, auto-estima, auto-desenvolvimento,
auto-representação, auto-regulação, auto-compreeensão, etc) Oosterwegel &
Oppenheimer(1993).
Harter (1996) salienta a existência de dois modos de
entender ou de conceptualizar esta variável: ou como modelo global ou
unidimensional, ou como um modelo multidimensional. Frequentemente chama-se ao
primeiro auto-estima (dado estes modelos tenderem a mais globais e as
avaliações livres de contexto) e ao segundo auto-conceito (mais dependentes do
contexto ou de conteúdos)
Newman e Harter desenvolveram e publicaram em 1986 o The
self-Perception Profile for College Students, o qual foi estudado para população Portuguesa por Ribeiro (1994).
Esta escala é constituída, na sua versão original, por 54
itens distribuídos por 13 sub-escalas com quatro items cada, excepto uma que
tem seis. O questionário fornece um perfil constituído com as notas das
sub-escalas, em que cada uma é suposto ser um domínio relevante para a vida do
estudante universitário, mais uma sub-escala que constitui uma apreciação
global independente de domínios (Newman & Harter, 1986). A adaptação
Portuguesa conservou 52 itens em 12 sub-escalas (Ribeiro, 1994)
A sub-escala com seis itens na versão original e sete na
versão Portuguesa (Ribeiro, 1994) difere das outras sub-escalas pelo facto de
pedir uma apreciação global, enquanto os restantes itens pedem uma apreciação
sobre aspectos mais específicos. Esta Apreciação Global refere-se ao sentimento
geral que o indivíduo tem acerca de si-próprio (self).
A The self-Perception Profile for College Students
adopta uma perspectiva estrutural do auto-conceito, ou seja, o auto-conceito
resulta da soma dos auto conceitos parciais, podendo igualmente ser apresentado
como um perfil de auto-conceitos por domínio.
A Escala de Auto-Apreciação Pessoal (AAP) não se debruça
sobre um domínio em particular e, por essa razão é susceptível de ser
considerada uma escala de avaliação do auto-conceito geral ou de auto-estima.
Objectivo do trabalho
Desenvolver uma escala de auto-estima de aplicação rápida
que facilite a sua utilização em contexto de saúde (a qual se apresenta em
anexo).
MÉTODO
Participantes
A amostra de respondentes era constituída por 609 pessoas,
47% do sexo masculino (idade M= 19,99 DP=3,87; entre 16 e 41 anos
) e 53% do sexo feminino (idade M= 19,79 DP= 3,09; entre 16 e 30
anos de idade) que participaram voluntariamente no estudo.
Material
Foi escolhida a sub-escala de apreciação global do The
self-Perception Profile for College Students adaptada por Ribeiro (1994).
Esta sub-escala, que aqui é tratada como uma escala autónoma
inclui sete itens, em que a resposta é dada numa de quatro alternativas:
primeiro, pela escolha de uma de duas afirmações antagónicas ("alguns
estudantes gostam de ser como são" versus "outros estudantes
gostariam de ser diferentes"), sendo a escolhida aquela com a qual o
sujeito se identifica. Depois, o sujeito deve centrar-se nessa afirmação
escolhendo uma de duas situações: identificação exacta com a afirmação ou
apenas aproximação ("sou mesmo assim" ou "sou mais ou menos
assim").
|
SOU MESMO ASSIM |
SOU MAIS OU MENOSASSIM |
|
|
|
SOU MAIS OU MENOS ASSIM |
SOU MESMO ASSIM |
|
o |
o |
Algumas
pessoas gostam de ser como são |
MAS |
Outras
pessoas gostariam de ser diferentes |
o |
o |
Cada item é cotado de 1 a 4, indicando o valor mais baixo,
baixa apreciação pessoal ou auto-estima, e o mais elevado, elevada apreciação
pessoal ou auto-estima. Parte dos itens são formulados pela positiva e outra
parte pela negativa. O resultado é apresentado como uma única nota. A nota pode
variar entre 7 e 28, com o valor mais elevado correspondendo a um apreciação
pessoal mais favorável.
Procedimento
Analisando a relação desta sub-escala com a escala total de
52 itens e 12 dimensões ou sub-escalas mais a nota global, apresentada no
quadro 1, verifica-se que a sub-escala constituída como escala neste estudo e
que se denominou Escala de Auto-Apreciação Pessoal (AAP), explica cerca de 2/3
da variância da escala total. A matriz de correlações mostra ainda que esta
sub-escala ou dimensão é a que exibe maior correlação (ou que explica mais
variância) com todas as outras sub-escalas (excepto numa correlação entre as 78
correlações apresentadas).
Quadro 1- correlação entre dimensões ou sub-escalas de auto conceito
entre si e com nota global.
|
|
AG |
CR |
CAC |
CI |
CAT |
AP |
AI |
AS |
RP |
RA |
H |
M |
|
TOT. |
0,79 |
0,57 |
0,60 |
0,64 |
0,47 |
0,59 |
0,59 |
0,67 |
0,42 |
0,55 |
0,33 |
0,34 |
|
AG |
|
0,37 |
0,51 |
0,46 |
0,23 |
0,44 |
0,37 |
0,54 |
0,32 |
0,37 |
0,20 |
0,24 |
|
CR |
|
|
0,41 |
0,54 |
0,28 |
0,18 |
0,22 |
0,30 |
0,11 |
0,23 |
0,20 |
0,06 |
|
CAC |
|
|
|
0,70 |
0,12 |
0,22 |
0,19 |
0,18 |
0,17 |
0,16 |
0,07 |
0,17 |
|
CI |
|
|
|
|
0,20 |
0,23 |
0,30 |
0,21 |
0,14 |
0,20 |
0,13 |
0,14 |
|
CAT |
|
|
|
|
|
0,39 |
0,17 |
0,29 |
0,06 |
0,28 |
0,03 |
0,02 |
|
AP |
|
|
|
|
|
|
0,24 |
0,31 |
0,20 |
0,31 |
0,09 |
0,16 |
|
AI |
|
|
|
|
|
|
|
0,50 |
0,14 |
0,38 |
0,23 |
0,15 |
|
AS |
|
|
|
|
|
|
|
|
0,23 |
0,46 |
0,25 |
0,14 |
|
RP |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
0,07 |
0,16 |
0,19 |
|
RA |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
0,10 |
0,02 |
|
H |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
0,04 |
AG-apreciação global; CR- criatividade; CAC-competência académica; CI- competência intelectual; CAT- competência atlética; AP-aparência; AI- amizades intímas; AS-aceitação social; RP- relações com os pais; RA-relações amorosas; H-humor; M-moralidade.
Perante os
factos referidos parece possível e útil adoptar a AAP como uma forma reduzida
de avaliação do auto-conceito ou, mais especificamente da auto-estima.
Validade de construto
A validade de construto foi inspeccionada por recurso à
correlação entre o presente teste e outros testes que avaliam construtos mais
semelhantes ou mais diferentes. Simultaneamente é comparada com a correlação
entre a adaptação portuguesa do The self-Perception Profile for College
Students e os mesmos testes.
É suposto que: a) a correlação entre a Escala de
Auto-Apreciação Pessoal e os testes que lhe são próximos seja mais elevada do
que aquela com os que avaliam construtos mais distantes; b) é desejável a
magnitude da correlação entre a versão total de 52 itens do The
self-Perception Profile for College Students com os mesmos testes seja
semelhante à da Escala de Auto-Apreciação Pessoal, c) a correlação entre a
Escala de Auto-Apreciação Pessoal e os outros testes deve apresentar uma
magnitude variada. O quadro 2 mostra as correlações entre este teste e o The
self-Perception Profile for College Students e os seguintes testes: Locus
de Controlo de Saúde; Auto-Eficácia Geral; Percepção Geral de Saúde;
Acontecimentos de Vida; Percepção de Suporte Social, Saúde Mental medida com A
adaptação portuguesa do Mental Health Inventory.
Quadro 2- correlação entre as
escalas em estudo e as escalas de comparação
|
|
LC |
AE |
PGS |
AV |
Social |
MHI |
|
SPPCS |
0,08 |
0,68** |
0,36** |
-0,14* |
0,60** |
0,58** |
|
AAP |
0,08 |
0,69** |
0,39** |
-0,13* |
0,63** |
0,59** |
*p<0,02; **p<0,0001
SPPCS- The self-Perception Profile for College Students; AAP-
Escala de Auto-Apreciação Pessoal
LC-Locus de controlo de saúde; AE-Auto-Eficácia Geral;
PGS-Percepção Geral de Saúde; AV-Acontecimentos de Vida; MHI-Escala de Saúde
mental
As correlações exibidas no quadro mostram que a variância
explicada pela AAP varia consoante as escalas escolhidas para comparação. Ela
prediz cerca de 50% da variância da única escala de auto-referência utilizada
(escala de Auto-Eficácia Geral), explica cerca um terço da variância das
escalas de Saúde Mental e de Percepção de Apoio Social, explica cerca de 16% da
escala de Percepção Geral de Saúde, explica cerca de 2% da variância dos
Acontecimentos de Vida. A correlação é estatisticamente significativa com todas
as escalas. Comparando as correlações entre a versão Portuguesa da The
self-Perception Profile for College Students de 52 itens e a da AAP
verifica-se que a magnitude das correlações é idêntica. Tal permite afirmar que
a AAP é um instrumento adequado para uma avaliação rápida da auto-estima em
contexto de saúde.
De salientar no entanto que a AAP não é passível de
substituir em absoluto a da The self-Perception Profile for College Students
na medida em que esta última fornece um perfil que permite identificar as
dimensões mais fortes ou mais frágeis do auto-conceito individual. Ou seja
enquanto esta permite apreciar um perfil, a AAP apenas fornece uma imagem
grosseira da apreciação pessoal, de magnitude idêntica, mas com efeitos
diagnósticos sobre o auto-conceito imprecisos.
Harter, S. (1996). Historical
roots of contemporary issues involving self-concept. In. B. Braecken (Edt.) Handbook
of self-concept: Developmental social and clinical considerations (1-37).
New York: John Wiley & Sons. INC.
Neemann, J., & Harter, S.
(1986). Manual for the self-profile for college students. Denver:
University of Denver.
Oosterwegel, A & Oppenheimer, L. (1993). The
self-system: developmental changes between and within self-concepts. New
Jersey: Lawrence Erlbaum Associate, Publishers
Ribeiro, JL. (1994). Adaptação do the self-perception profile
for college students à
população portuguesa como instrumento de utilização no contexto da psicologia
da saúde. In: L. Almeida e I.Ribeiro(Org.). Avaliação Psicológica: Formas e
contextos (pp129-138).Braga: APPORT.
COMO EU SOU EM COMPARAÇÃO COM OS
OUTROS
Vamos apresentar um conjunto de frases que
permitem às pessoas descrever-se a si próprios por comparação com as outras
pessoas. Não há respostas boas ou más, certas ou erradas porque as pessoas
diferem muito entre si.
Em
primeiro lugar deve decidir se é a frase do lado esquerdo da folha que o
descreve melhor ou se é a do lado direito. Uma vez escolhida a frase que melhor
o descreve, deve decidir se você “é mesmo assim”, ou se “é mais ou menos
assim”. Depois de se decidir marca uma cruz dentro do quadrado respectivo. Para
cada conjunto de quatro quadrados relativos a cada par de frases só deve
assinalar um quadrado. Umas vezes vai colocar a cruz do lado direito e
outras do lado esquerdo, mas nunca deve colocar na mesma linha do lado direito
e esquerdo ao mesmo tempo
|
SOU MESMO ASSIM |
SOU MAIS OU MENOSASSIM |
|
|
|
SOU MAIS OU MENOS ASSIM |
SOU MESMO ASSIM |
|
o |
o |
Algumas
pessoas gostam de ser como são |
MAS |
Outras
pessoas gostariam de ser diferentes |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas estão muitas vezes desiludidas consigo próprias |
MAS |
Outras
pessoas normalmente sentem-se satisfeitas consigo próprias |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas gostam da maneira como conduzem a sua vida |
MAS |
Outras
pessoas, muitas vezes, não gostam da maneira como conduzem a sua vida |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas preferiam ser diferentes |
MAS |
Outras
pessoas estão muito contentes por serem como são |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas habitualmente gostam de si mesmo como pessoa |
MAS |
Outras
pessoas muitas vezes não gostam de si mesmo como pessoas |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas não estão satisfeitas com a maneira como fazem as suas tarefas |
MAS |
Outras
pessoas estão bastante satisfeitas com a maneira como fazem as suas tarefas |
o |
o |
|
o |
o |
Algumas
pessoas estão muitas vezes descontentes consigo mesmo |
MAS |
outras
pessoas estão habitualmente bastante contentes consigo mesmo |
o |
o |
MUITO OBRIGADO PELA SUA COLABORAÇÃO
COTAÇÃO
DOS ITENS
Esta escala destina-se a jovens adultos a partir dos 16 anos
de idade.
A escala original inclui 7 itens.
A cotação dos itens é feita
atribuindo 1 ponto ao registo mais à esquerda, dois ao seguinte, três ao
seguinte e quatro ao mais à direita, excepto para aqueles que seguir são
indicados como invertidos em que a atribuição de a nota é inversa. De seguida
estes valores são somados. Nota varia entre 7 e 28. Uma nota mais elevada
significa apreciação mais positiva
Itens invertidos:1, 3, 5