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ESTADO DA ARTE

Diferença colonia e subalternidade para uma análise cultural comparativa da violência contra as mulheres e as crianças

Os contextos onde está a decorrer o projecto CEINAV têm diferenças políticas e culturais mas têm subjacente um sistema de relações de poder patriarcal, capitalista e colonialista.

Os “encontros culturais” são enquadrados em fornteiras teóricas interligadas com as experiências das mulheres, imigrantes ou não, que por alguma razão entraram no sistema nacional de intervenção contra a violência.

Desde uma localização feminista e pós-colonial colocam-se questões importantes a ser consideradas para a análise dos resultados e dos métodos aplicados.

Primeiro, é importante reflectir sobre a posição subalterna das mulheres nos contextos onde está a decorrer a investigação. Como já foi referido acima, apesar das diferentes dinâmicas históricas, culturais e políticas que encontrámos nos quatro países é possível observar um sistema patriarcal, capitalista e colonialista nestes contextos. Assim propomos o conceito de subalternidade de Gramisci, posteriormente, desenvolvido por Spivak (1988) para melhor compreendermos as experiências  das mulheres e as causas da violência contra as mulheres e crianças. Neste sentido, também se considera que existem diferentes níveis de subalternidade se cruzarmos a opressão de género com as opressões de raça, etnicidade, sexualidade, idade e outras. Assim é crucial evitar uma noção essencialista de mulher e feminilidade.

A base teórica da nossa análise refere-se a um sujeito colectivo de mulheres, heterogéneo e fragmentado, na materialidade das suas (nossas) próprias histórias e trajectórias colectivas e pessoais, refutando a construção “mulher” como um “outro composto culturalmente e ideologicamente” (Mohanty, 1988: 334). O discurso liberal pressupõe por um lado um cidadão livre dos constrangimentos económicos, físicos e emocionais (James, 1992), e, por outro, a vitimização generalizada das mulheres. Neste sentido a desigualdade de género evidencia  que as mulheres são diferentemente posicionadas no sistema de cidadania. Como Chandra Mohanty refere, o feminismo académico ocidental, por vezes, reproduz uma noção de mulher como um grupo homogéneo:

“A assunção das mulheres como, um grupo coerente constituído, com interesses e desejos idênticos, independentemente de classe, das localizações ou contradições étnicas ou raciais implica uma noção de género ou diferença sexual ou mesmo de patriarcado (como o domínio masculino - os homens como um grupo correspondentemente coerente) que pode ser aplicada universalmente e que atravessa todas as culturas.” (1988: 336-7)

Os discursos feministas, por vezes, enfatizam a noção socialmente construída da mulher como “educada, moderna, com controlo sobre o próprio corpo e sexualidade, e com liberdade de escolha” (Mohanty 1988: 337). Este modelo ideal de mulher, no ocidente, serve para construir, numa relação hierárquica e oposocional, a outra mulher – mulher do 3º mundo – que são assim descritas como “sexualmente reprimidas, ignorantes, pobres, tradicionais, domésticas, dedicadas à família.” (Ibid.). este processo de subjectivação das mulheres provoca diferentes níveis de vitimazação.

As/os  investigadoras/es nos quatro países estão a produzir textos teóricos para explorar questões cruciais para criar ferramentas e estratégias para uma análise feminista pós-colonial com o objectivo principal de erradicar a violência contra as mulheres e crianças.
 


Referências:

Chatterjee, Partha (1993) “Whose imagined community” in Chatterjee (1993) The Nation and its Fragments: Colonial and Postcolonial Histories, Princeton, New Jersey: Princeton Universtiy Press, cap One, pp 3-13.
James, Susan (1992) “The good-enough citizen: citizenship and independence”, in Bock & James (eds.) (1992) Beyond Equality and Difference: Citizenship, Feminist Politics and Female Subjectivity, pp 43-60.
Mignolo, Water D.; Schiwy, Freya (2003) “Transculturation and the Colonial Difference. Double Translation”, in  Tullio Maranhão and Bernard Streck (eds.) (2003) Translation and Ethnography: The Anthropological Challenge of Intercultural Understanding, Tucson: University of Arizona Press.
Mohanty, Chandra (1988) “Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses”, pp 332-358.
Spivak, Gayatri Chakravorty (1988) “Can the subaltern speak?”, in Cary Nelson and Lawrence Grossberg (1988) Marxism and the Interpretation of Culture, Chicago: University of Illinois Press, pp 271-313.

 

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